Mitos Africanos

Dos mitos de Oyê (história do Odu)

 


Os quatro principais mitos de Oyê servem para que possamos ter uma maior interpretação sobre a religiosidade e
as pessoas com as quais vivemos na Terra, sendo importante que pelo menos os conheçamos.

 

Ojonilé (Ejonilé)
Era uma moça muito bonita que morava num palácio. Tinha também uma moça, porém, muito pobrezinha, que
veio com sua velha mãe pedir proteção a rica, para fazer sua choupana ali, encostada no muro do palácio. Mas
ela era Omorixá (voltada ao culto dos orixás); no fundo do quintal tinha um rio e na beira desse rio um pé de
Orobó, que servia para tirar e fazer obrigação. De manhã ela ia para a beira do rio, tirava uma cuia de orobó e
botava no pé do santo. No dia seguinte comia com a mãe. A moça do palácio nem mandava os restos de sua
cozinha para elas. Não tinham homens dentro da casa, (para prover sua manutenção), mas iam passando. “A
rica ficou um dia à janela para ver como elas viviam, se lhe pedir nada. Viu a moça varrer o terreiro, limpar a
choupana, lavar roupa e sair para o rio, viu ela voltar com os orobos. Foi lá no fundo do quintal, trepou no muro
e viu o pé de orobó, então a dona do palácio disse que ia acabar com aquilo. Mandou chamar a pobre em seu
castelo: “Como é que você vive?” Não tem marido, o que faz? Aí a moça disse: eu sou omorixá. Ela perguntou:
“Adora seus santos? Como pode dar obrigação?”A moça disse: Trago Orobós. Ela perguntou: É com isso que se
alimenta? A moça respondeu: É. Quando a moça pobre saiu ela disse: Você vai ver se tirar mais orobós... No dia
seguinte, bem cedinho, a moça rica foi lá e tirou todos os orobós, naquela ganância, e encheu uma lata. Carregou
a lata e jogou tudo em cima dos santos dela. Quando a moça pobre foi lá, não encontrou mais orobós. Olhou no
rio assim desconsolada e viu que tinha um só lá na ponta do galho do rio. Subiu no pé de orobó, quando depois
de muito trabalho, já ia pegando nele, ele caiu no rio. Ficou dentro da água subindo e descendo assim. Aí ela
disse: Orobomin, o senhor caiu dentro da água; era para eu dar a meu santo. Mas o orobó continuou dançando
dentro d’água. Na água se afastou com a correnteza. Ela corria atrás pela beira do rio cantando:
Orobomim – xo – xá
Emin – Kodan – Kodan
Xo – Xá
Orobomim – xo – xá
O que quer dizer: Orobó venha para onde eu estou, tenha compaixão de mim.Quando mais ela cantava, mais ele
saltava na água e ia dando aquelas carreirinhas para adiante, da correnteza. E ela atrás cantando... Ela estava
descalça, com uma roupa de casa, os cabelos soltos. Foi quando o orobó chegou num peral (redemoinho) e ela
vendo que ele ia embora mesmo, ajoelhou-se e tornou a cantar. Estava nesta agonia, quando ela ouviu aquela
voz: que estais fazendo aí, minha filha? Era um velho, verdadeiro Abuké – Kuajá (Orixalá velho, fraco), pediu
que levasse ele em casa e ela se pôs a ajudar o velho. E o velho se fazendo de mais bambo do que era e demais
pesado. E ela com toda a paciência, ajudando o velho, até que chegaram na casa dele. Era uma casa toda suja,
levada da breca. Botou o velho na cama. Tinha uma galinha branca. “Meu velho, está com fome?” – perguntou.
Varreu a casa toda e procurou comida, mas só achou arroz e cebola. Pegou a galinha e matou e procurou o
sal...Não tinha. E aí ela pensou – ele é velho, como assim mesmo. Desfiou o peito da galinha e foi dando para ele
comer. O velho aí fazia a boca mais mole. A baba escorria pelo canto da boca e ela enxugava e ia dando a ele de
comer. Ele comeu o arroz e a parte da galinha. Ele já tinha mandado ela botar sua touca assim no canto do
banco, para poder comer. – Depois de comer ele se pôs a gemer. Ela estava terminando de arrumar a casa e lavar
as coisas. Veio ver o que era. O velho então levantou a perna e lhe mostrou a ferida enorme. Ensinou que ela
tirasse a pimenta e fizesse uma cataplasma. Mas ela teve pena e fez apenas uma lavagem da ferida. Viu a bola
branca no canto...efun (e pensou: deve ser, é um secativo); botou em cima da ferida do velho e ele perguntou:
Cadê a pimenta? Ela disse, já botei, e depois contou sua história. Quando ela findou o velho disse, todo dengoso,
que levantasse ele. Ela levantou o velho, calçando-lhe as costas com travesseiros. Depois ele disse: bote a toca na
minha cabeça. Quando ela levantou a toca era um enorme orobó. A moça ficou muito contente, e o velho lhe
disse que, ao sair da casa, voltasse pelo mesmo caminho. Disse; Você vai ver três cabaças (coités) no rio. Não
ligue. Siga seu caminho. Encontrará outro que vem para a beira do rio. Pegue ele e abra ali mesmo, mas não olhe
para trás. Mais adiante encontrará três cabaços gritando com os primeiros: caminhe, caminhe, caminhe. Deixe
eles. Depois encontrará três outros que vêm para a beira do rio. Pegue eles e só abra em casa. Depois disso ele
despediu-se da moça, dizendo: Deus lhe acompanhe, No mundo pouco se encontra com a sua paciência. Quando
a moça deu por ela, o velho havia desaparecido. Ela saiu e encontrou os três cabaços gritando: caminhe, caminhe,
caminhe. Disse: sai-te e continuou o caminho. Depois encontrou um só. Pegou ele, quebrou e não olhou para trás.
Era uma riqueza que saiu acompanhando ela... Encontrou, os três gritando de novo. Nada,. Nem ligou.
Encontrou os dois, pegou e quebrou. Saíram carruagens, criados, vestidos, tudo que havia de bom e foram
acompanhando ela, sem que ela percebesse. Encontrou os outros três gritando, mas não pegou. No fim,
apareceram os três que vinham para a beira do rio. Ela pegou, e levou para casa. Quebrou lá dentro de casa e era
dinheiro que quase afoga ela e a mãe. Pediu socorro ao velho e aquilo se aplacou. Os babaquaras aí disseram que
não era dela aquilo tudo e sim da moça de junto. Foi à frente da moça rica e contou tudo, mas contou ao
contrário. Ejonilé (olho grande nela e na casa).
A moça rica não dormiu nessa noite. De manhã para a beira do rio, pegou um orobó e jogou dentro d’água. Saiu
atrás dele até chegar no peral. Aí veio o velho. Ela disse para si mesma: Não gosto de velho... Depois se lembrou!
Ah! É o velho da história. Pegou ele resmungando e quando o velho se fazia de mais mole ela se zangou com ele.
Pegou de qualquer jeito e jogou na cama. Deu sobejo de água, fez comida mal feita. Deu grito com o velho e nem
arrumou a casa dele. Quando o velho mostrou a ferida ela botou foi pimenta. O velho choramingou. Aí ela disse:
Você ontem levou pimenta e não reclamou... quando chegou a ora de ir o velho disse tudo igual a outra, mas não
disse: “a felicidade te acompanhe”.
Quando apareceram logo os três primeiros cabaços gritando: caminhe, caminhe, caminhe, ela disse: esse velho
quer me enganar...à outra ele não disse que deixasse esses...aí pegou os três e quebrou na beira do rio. Eram “três
cães de rabo”. Pegou os outros três, e era tudo o que não prestava que saía também atrás dela, sem ela ver.
Depois ela pegou os três mais e levou para casa. Lá quando quebrou, saiu uma serpente devoradora que comeu
ela e tudo e o palácio desabou. Aí vem o provérbio: “Não humilheis os outros para não serdes humilhados”.

 

Obejokó


Era um dia de Udu-ara ou Abolu-ifá, a grande festa de Orumilá. Ossãe que é zelador das folhas, ou melhor, o
dono das folhas, para Orumilá, e também do dinheiro, estava na porta da casa desfiando maruou (folhas de
palmeira). Foi quando chegou Xangô e disse: Osahin oniki (Bom dia Ossãe); kilei? (O que há?). Aí Ossãe disse
que não iria à festa por que naquele ano a sua plantação só tinha dado abóbora e os inhames, que era o que
deveria levar, eram muito poucos. Xangô disse que não tinha nada e que ele fosse mesmo levar. Mas Ossãe não
quis ir e então Xangô disse: Pois leve meus cavalos (que significa os filhos de Xangô). Ossãe disse que ele levasse
os seus inhames e suas abóboras, mas que não iria mesmo. Ajudou Xangô a carregar os cavalos e viu Xangô ir
embora. Quando Xangô chegou ao palácio de Orumilá estavam os santos com aquelas tulhas de inhame. Xangô
descarregou os dele e fez o seu monte misturando os inhames de Ossãe e pegou as abóboras e fez a tulha de
Ossãe. Salvou Orumilá assim: Ifanin-iboru-iboie-oboxixe (que pela parte dele desejava as maiores felicidades
para Orumilá e que seus ixés progredissem). Orumilá viu a pilha de inhames que Xangô havia trazido e ficou
muito satisfeito. Depois viu as abóboras de Ossãe e perguntou a Xangô de quem eram. Aí Xangô disse: De
Ossãe, querendo incriminar o irmão. Orumilá então disse: Leve esses obarás (abóbora) de volta para Ossãe
(porque até aí abóbora não tinha valor de obará) e soprou em cima das abóboras. Mandou então os exus
carregarem os cavalos de Xangô com os presentes e as abóboras voltaram nos mesmos em que tinham vindo. E
disse a Xangô: Odolá (Adeus, até um dia). Quando Xangô chegou à casa de Ossãe, deu a ele o recado: Está aqui
o que Orumilá mandou, os obarás para você. Ossãe ficou triste quando viu os jerimum de volta. Depois que os
obará bateram dentro da casa, a família de Ossãe começou a passar necessidade. Choravam: Obará bobeninobará-
orumalé (na parte de Ossãe tem choro, tristeza ou saída; a saída tanto contém moralidade do dito acima,
como anuncia desgosto e dor). A mulher dele, porém, é que dizia: Olorum é que nos protege. No terceiro dia já
estavam com uma fome extraordinária. Foi quando a mulher de Ossãe propôs: Vamos partir um dos jerimuns dos
que Yfá não quis. Decidiram que cortariam quatro talhadas: uma para ela, uma para ele e as outras para os dois
filhos. Ossãe pegou a faca e começou o corte. Mas bem não havia afundado a mão quando sentiu que a faca
dentro da abóbora tinha batido numa coisa que rangia. Mas ele continuou assim mesmo e quando abriu o obará
tomou aquele susto. O miolo que tem as sementes tinha virado dinheiro. Ele então partiu o outro, e o outro e
todos tinham dinheiro... Ossãe era pobre e ficou rico. Daí por diante ele passou a ter direito à roupa, come galo
arrepiado branco. Para quem sai esse odu não come abóbora, por que se comer dará dor de cólica. Também esse
odu tem parte com Xangô e Orumilá, além de Ossãe.

 

Odi Kankan


Outrora Oxalufã, pai de Oxaguiã, Rei de Egfibó, projetou deixar o reino de seu filho para visitar a seu amigo
Xangô, rei de Oyó, o país vizinho. Antes de partir ele foi ver o babalaô que consultou a Ifá e lhe declarou que
não deveria empreender aquela viajem. Oxalufã insistiu, perguntou se algumas ofertas ou sacrifícios não
tornariam a viajem favorável. O babalaô lhe confirmou que a viajem seria desastrosa de qualquer jeito, ele seria
vítima de numerosos desastres, que aventuras más o esperavam e se ele não quisesse morrer, deveria fazer tudo o
que lhe fosse mandado, sem jamais recusar um serviço e não lamentar o que lhe acontecesse; e ainda deveria levar
três vestimentas de reserva, sabão indígena e manteiga de karité. Oxalufã partiu. Como estivesse velho
caminhava lentamente se apoiando no paxorô; encontrou exu assentado sobre a borda da estrada e uma grande
barrica de óleo de palma pousada a seu lado. Ele pediu para que ajudasse a carregar seu fardo sobre a cabeça, ele
o fez; Exu voltando o conteúdo sobre ele e se pôs a rir e a zombar de Oxalufã que não se aborreceu, mas
continuou para o riacho vizinho e tomou um banho, e passando a manteiga de karité sobre o corpo pôs a
vestimenta própria e deixou a antiga como oferenda. Meteu-se no caminho fracamente e duas vezes ainda
encontrou exu que tomou o mesmo caminho com uma carga de carvão e uma de óleo de amêndoas de palma.
Oxalufã fez como da primeira vez e continuou seu caminho. Pouco depois ele entrou no reino de Xangô;
passando perto de um campo de milho vê um cavalo de Xangô que foge; ele colhe algumas espigas e dá para o
cavalo comer. Os servidores de Xangô, lançados em perseguição ao animal, chegam e prendem Oxalufã como
ladrão de cavalos, caindo sobre ele com golpes de bastão, prendem seus braços e pernas e o lançam na prisão
levando o cavalo a seu mestre. Sete anos de desgraça passam pelo reino de Xangô; a seca compromete as colheitas,
as mulheres tornam-se estéreis, etc... Xangô faz consultar o Ifá que revela que todo esse mal provém de que um
velho homem foi injustamente posto na prisão. Buscas e investigações, finalmente Oxalufã é trazido na presença
de Xangô. Ele reconhece imediatamente seu amigo, desesperado e envergonhado do que aconteceu ele dá ordens a
todos os seus servos, de todos vestidos de branco, e no maior silêncio em sinal de respeito, procurar água para
lavar Oxalufã. Voltando em seguida para Oxaguiã que não tinha notícias de seu pai, mal grado as buscas
empreendidas, celebraram-se grandes festas e distribuição de alimentos a todas as pessoas.

Ogun-dá-Meji


Orumilá ia fazer uma viajem e foi a um Oluô (babalorixá muito velho); e mesmo lhe recomendou fazer um
sacrifício, mas ele se esqueceu. Saiu na carruagem, com seus pajens, os seus exus, e ia pelo caminho quando viu de
um lado da estrada pés de obis, e do outro lado pés de orobó. Aquilo era mesmo uma tentação. Ele apeou e
começou a comer os obis e orobós. Foi quando chegou a precatória (havendo violado a proibição, além de ter
iniciado a viajem sem os sacrifícios preparatórios, passou ele a ser perseguido por entidades sobrenaturais não
identificadas).Os inimigos correram atrás dele para pegarem e ele meteu-se numa carruagem e tocou a toda
velocidade com o povo atrás peara pegá-lo. Adiante, ele se viu tão apertado que largou a carruagem e meteu-se
num buraco. Foi quando uma aranha começou a fazer uma teia e fechou a passagem. Os inimigos chegaram e,
vendo a teia, disseram que era impossível alguém estar ali e foram embora. Os exus, na fuga tinham se espalhado,
mas começaram a bater o mato em procura de seu chefe. Um exu, que também estava à procura de seu chefe,
encontrou no meio do caminho um homem agachado, com uma faca fincada no chão. Chamou por ele, porque
podia ser um inimigo assim disfarçado. Mas era Ogum. Então eles se juntaram e foram descobrir Orumilá.
Tiraram ele sem fazer mal à aranha que estava lá no meio da teia. Por isso, quando sai o odu acima se mata com
uma faca nova. O sacrifício é de porco e se amarra ele com uma corda nova. Não podendo dar um porco inteiro
dar somente a cabeça, os pés, o sangue e a fressura e um quarto da carne.